Quando você sente dor, quando você está sofrendo, quando você vê sua vida aos frangalhos e fica sem saber o que fazer, seja por causa de algum problema pessoal na família, algo relacionado a sua profissão ou mesmo por causa de dificuldades financeiras que você esteja passando, dessas dificuldades que parecem nunca ter fim, de quem nunca acostuma em viver sem dinheiro, de quem sempre viveu e continua vivendo com recursos muito limitados, tudo isso é você quem está percebendo, sentindo, vivenciando, ninguém mais pode sentir isso por você, obviamente que isso só pode acontecer por meio do seu próprio ponto de vista, você percebe tudo por meio de você mesmo, dos seus próprios olhos e, de fato, ninguém pode sentir isso por você. Você pode falar com alguém a respeito da sua dor, mas ninguém poderá senti-la por você, junto com você a pessoa até pode ficar compadecida e triste, podendo ou não sentir empatia por seu sofrimento, pode até ser capaz de imaginar a sua dor, mas não pode vivenciá-la da mesma maneira que você, pois a dor em si, ela é sua, somente sua, por mais que uma outra pessoa esteja passando por problemas parecidos, a dor é sempre algo pessoal e intransferível. Você pode conversar a respeito do assunto “dor” com qualquer pessoa que você achar que deve desabafar, mas tudo acontecerá por mero e simples desabafo, nada muito além disso e, curiosamente, você não acredita que alguém pode sentir isso por você, e de fato não pode mesmo. Você é o único que pode saber profundamente o que está acontecendo com a sua vida e o que você está sentindo a cada momento, ninguém pode passar por isso no seu lugar, isso tudo é seu, e você não consegue acreditar que alguém pode saber disso senão você mesmo. Porém, quando o assunto é falar da riqueza dos outros, isso não acontece da mesma maneira, e essa contradição também acontece assim com relação a alegria dos outros. Nesse momento você se esquece que ninguém pode saber do seu sofrimento além de você mesmo, mas por algum motivo estranho as pessoas geralmente acreditam que podem saber a respeito da felicidade e da riqueza dos outros, sendo que a alegria e a tristeza pertencem ao mesmo grupo linguístico, classe gramatical, campo semântico, falar de um é como deixar subentendido a existência de seu oposto (mesmo que não esteja presente, mesmo que não esteja sendo citado). Na filosofia, tais ideias pertencem também ao mesmo grupo, ao grupo dos afetos, das afecções, das paixões da alma e da ética, assim, pobreza e riqueza também são assuntos do mesmo espectro, se você pode saber algo a respeito da riqueza dos outros, em tese você também poderá saber algo a respeito da pobreza, assim acontece com a alegria, se ninguém pode saber da sua tristeza, também não poderá saber nada da sua alegria, não poderá vivenciar da experiência senão por meio da imaginação, por meio do pensamento, por meio da palavra, pois se a tristeza é sua, e quando houver a alegria? A alegria também é sua. Mas curiosamente a maioria das pessoas não aceita que os outros possam de fato saber de suas tristezas, então, logo acabam caindo em contradição.

Você não percebe que inconscientemente você está mudando a régua de julgamento conforme lhe convém e, quando se refere aos outros, você faz de um jeito, escancara tudo com ares de sabedoria, mas quando se refere a você, as possibilidades se afunilam, as portas vão sendo fechadas, e você passa a ter a certeza de que ninguém no mundo possui a mesma capacidade que, até há poucos instantes, você defendia possuir. Você não percebe que se o outro não pode saber ou sentir nada por você a respeito das suas dores, das suas dificuldades, você também não pode saber delas a respeito dos outros, nem das tristezas e nem de das felicidades,  e se, sentir as dores da sua pobreza for mesmo algo impossível para o outro, igualmente você não conseguirá saber ou sentir nada a respeito da vida do outro, nem da riqueza e nem da pobreza de ninguém, nem da alegria e tampouco da tristeza de quem quer que seja, quando muito, você poderá apenas imaginar coisas, e não poderá, de maneira absoluta, concluir nada com relação ao outro.

Você imagina que possuir dinheiro poderá proporcionar muitas alegrias, e de fato poderá mesmo, mas não há garantias de nada, de coisa alguma, talvez algumas alegrias, às vezes algumas irritações, mas em outras oportunidades pode servir como um tipo de maldição, como o que acontece por muitas vezes com alguns dos ganhadores de loterias em que muitos morreram justamente por terem sido “afortunados” pelo prêmio financeiro tão desejado. O dinheiro não pode tudo, não pode te levar para Marte, não pode te levar para outras galáxias (ao menos por enquanto), não pode voltar no tempo, algumas vezes pode salvar vidas, mas, por muitas outras vezes, não nada. Porém, ao contrário do que a realidade demonstra fica mais fácil para qualquer pessoa imaginar que os problemas são decorrentes da falta de dinheiro, porque isso é o que há de mais fácil de ser percebido, e isso não faz nenhum sentido prático para a grande maioria dos acontecimentos da vida, o dinheiro sendo ou não fácil de ser percebido, isso não coloca o dinheiro como o grande “resolvedor” de problemas, e o dinheiro é só um dos muitos aspectos sociais, mas não é nada determinante, aliás, quanto mais materialista for a pessoa, maiores são suas chances de sofrimento espiritual. Você imagina que ter dinheiro pode mesmo ajudar a diminuir o impacto de certos problemas, e de fato pode, mas dinheiro nenhum do mundo pode reverter um quadro grave de doença terminal. Dinheiro pode até ajudar a resolver os problemas mais básicos, mas não pode fazer o papel de Deus na Terra. Você pode acreditar que os ricos são mais felizes do que você, tudo porque não precisam passar pelos mesmos problemas que você julga como sendo algo ridículo para quem tem dinheiro (e de fato problemas financeiros poderiam nem existir), sendo que, para você, esse é um problema que consome boa parte do seu tempo, isso é coisa que somente quem tem problemas financeiros pode entender, mas a vida não é só isso, e quanto maior a responsabilidade de uma pessoa por ser rica, como um líder de um grande conglomerado de empresas, maiores serão as pressões para obter maiores resultados. Para algumas situações estamos presos a preocupações que para outras pessoas podem parecer assunto tranquilo, mas o contrário também é verdadeiro, existem inúmeros problemas de gente que exerce grandes cargos ou são donos de grandes empresas que podem parecer insuportáveis para a grande maioria das pessoas comuns, problemas em que a maioria das pessoas não saberiam como resolver. Ter ou não ter dinheiro nunca deveria ser algo de muita importância no imaginário humano, as coisas não deveriam ser resumidas assim, de maneira tão simplória, não é desta maneira que funciona o mundo, mas ninguém é louco de dizer que dinheiro não é importante, só não é tão determinante em diversas situações que às vezes nem conseguimos listar. É certo de que existe uma equação que é ignorada por muita gente, pois, mais dinheiro, mais preocupações com outras questões, menos dinheiro pode não te dar tempo de pensar em certas futilidades, com o pobre a vida pede mais urgência e responsabilidade com o próprio ato de tentar sobreviver, e o pobre não tem tempo para gastar ou perder energias com coisas superficiais (ou ao menos não deveria), mas infelizmente, em algum momento da vida, todos nós perdemos tempo com alguma coisa sem importância, isso é da natureza humana, pois a vida é repleta de problemas para todos e em todos os níveis, e se uma etapa parece ter sido vencida por alguém, só porque não está faltando dinheiro?! Isso não faz o menor sentido, não de maneira absoluta, pois outras etapas mais problemáticas vão ocupando o espaço na vida de quem não passa de um ser humano comum, o dinheiro não nos livra de cem por cento dos problemas, das tragédias, dos dramas. Como qualquer outro ser, repleto de questionamentos, dúvidas, falhas, o ser humano sofre, e faz parte de quem possui alguma inteligência e alguma responsabilidade conseguir perceber que viver não é fácil, e todos nós deveríamos saber que ninguém pode tudo o tempo todo. Você acredita que o dinheiro pode resolver seus traumas, apagar suas feridas, mas não pode, quando muito, ajuda a esquecer por algum tempo as questões que são improdutivas, mas há sempre quem prefira se amarrar ao passado ou aos problemas, e aí, certamente que tudo poderá ficar ainda mais difícil. Uma viagem para um lugar bonito pode te fazer esquecer de certas coisas, mas tudo volta ao normal assim que a viagem acaba, então, não há dinheiro que resolva todos os traumas. Ter ou não dinheiro para uma grande viagem é de fato muito bom, mas isso não faz os problemas desaparecerem da vida de ninguém. Sentir inveja ou ressentimento dos mais ricos só vai fazer mal, porque ninguém pode saber da vida de ninguém, e menos ainda dos pesos dos problemas pessoais, ninguém sabe nada a ponto de sentir o peso e as dores nas mesmas proporções quanto aos problemas dos outros, ninguém pode saber nada muito além das suas próprias coisas, das pessoas e de seus parentes mais próximos, saber o peso da carga que cada um carrega; isso é impossível. Então, ao invés de gastar tempo pensando como seria a vida se tivesse dinheiro, ao invés de ficar pensando que você seria mais feliz, que você não teria que perder tempo com certos problemas, pense como você pode minimizar o impacto de seus problemas agindo sempre na resolução. Sentar em cima do problema e achar que quem tem dinheiro não tem problema é como acreditar em duendes, fadinhas, faunos, etc. Se o dinheiro é mesmo tão importante, gaste as energias pensando em como poderá ganhar mais dinheiro com um novo trabalho, como poderá conquistar mais felicidade ampliando os conhecimentos, o que fazer para não ficar dependendo da realização materialista de coisas que você não consegue perceber na devida dimensão, pois poderá descobrir, às vezes tarde demais, que seus pensamentos nada podem representar para aquele que sente saudades de um amigo que já se foi e nunca mais poderá voltar, não há dinheiro que possa trazer um parente ou um amigo de volta após sua morte, ou tentar salvar alguém que esteja com uma doença terminal, a dor de uma mãe que perdeu um filho; nenhum dinheiro poderá resolver tais problemas.

A dor do outro jamais poderá ser a sua felicidade, assim como a felicidade do outro não tem nada a ver com as tristezas de ninguém, o que outro tem ou não tem, na maioria das vezes, não está relacionado com as dores pessoais de ninguém, salvo raríssimas exceções. Se não podemos saber das dores dos outros, e se os outros não podem saber das nossas dores, também ninguém pode saber das felicidades de ninguém.

O ruído ou o silêncio do sucesso dos outros (ou das dores), não podem ser medidos pelas dores de ninguém; não há relação alguma, nem para a tristeza, e menos ainda para a alegria. Assim, dizer que: “A dor é minha, e a felicidade é dos outros”, isso não faz o menor sentido!

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