(Daniel Kahneman e o suicídio assistido: o que foi divulgado pelo The Wall Street Journal)
O ser humano geralmente gosta da ideia de que pode deixar algo para alguém, algo que pode ou não ser material, até mesmo pode pensar que isso seja um dever ou apenas como uma vontade de deixar algo que possa ser transmitido para as gerações seguintes, um ensinamento, uma ideia, uma cultura específica, uma memória que poderá ser duradoura, estes são os aspectos mais básicos do que podemos considerar como sendo um “legado”. Assim, qual foi o legado deixado por Daniel Kahneman (1934–2024), psicólogo israelense-americano e vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2002, considerado como uma das pessoas mais influentes no estudo da tomada de decisões, dos vieses cognitivos e da psicologia econômica. Ele escreveu o livro “Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar”, um dos livros mais conhecidos da sua carreira, onde investiga como as pessoas realizam seus julgamentos das diversas situações da vida, como avaliam os riscos e como tomam decisões.
Os temas ligados a morte assistida costumam gerar debates acalorados, duvidas, indignações, tempestades de palavras, ás vezes muito convincentes em esconder o que de fato está por detrás do “ato”, as intenções podem ser reveladas muito mais pelo que está escondido do que pelo o que de fato está sendo dito, as pessoas se acostumaram ao fingimento como quem está acostumado a respirar, e esse comentário não é (ou jamais deveria ser) como um juízo de valor, mas infelizmente é o que acaba acontecendo no imaginário das pessoas, sempre estamos com alguma ideia ou pensamento que gera algum tipo de juízo, o poder de dizer algo de maneira direta e transparente deveria ser o lugar comum, mas não é bem assim, o politicamente correto pede por mais mentiras, por mais fingimentos, pede por códigos de conduta que, a cada dia mais, silenciam a verdade, o que também significa dar passe livre a quem quer que seja a fim de pensar em si mesmo como o único representante da verdade, assim, o desafio deveria ser o de poder falar o que quiser desde que seja com educação e respeito, essa seria a única e verdadeira maneira de chegar ou de tentar chegar até a verdade, mas infelizmente os comportamentos humanos não toleram gente que está o tempo todo desafiando certas convenções, mas quase todos gostam de fingir que sim, principalmente quando os “vencedores” já são conhecidos com tudo discretamente combinado, tudo de antemão com destino já acertado, pois a verdade não tolera compadrios, enquanto que a mentira não vive sem os seus asseclas. Os temas que envolvem a morte, sofrimento, envelhecimento, liberdade, escravidão, doenças, finitude, dignidade, geralmente causam polêmicas, como se fosse possível delimitar com palavras o momento exato ou lugar exato em que um monte de merda deixa de ser algo puro para se transformar em excremento. Não é possível obter qualquer tipo de ética diante do que essencialmente já é antiético, e o suicídio não é e nunca será um objeto de debate ético, uma simples citação ao tema, com ou sem o respeito mínimo necessário propondo sua existência e normalização, já pode ser considera como um atentado contra a inteligência, contra a ética, contra a vida.
Vamos tentar não entrar nas questões de como o caso de Kahneman foi relatado, porque foi relatado, quais as motivações pessoais e as possíveis interpretações de uma falsa filosofia que não passa de uma ideia demoníaca de relativizar o absurdo, ao menos esses não serão os objetivos centrais deste artigo. A sociedade que não consegue perceber que o simples ato ou pensamento de tentar ser deus já coloca a todos em uma posição demoníaca, se alguém tenta negar o sagrado acaba abraçando o profano, não tem escapatória, e todas essas ideias e pensamentos estão fadados a cometer sempre os meus erros, os erros do materialismo, que é o de negar aquilo que não pode ser alcançado, tocado, atingido, verificado, e que desconhece que nem por isso tais “coisas” não vão deixar de existir só porque a humanidade ainda não encontrou maneiras de fazer suas verificações científicas.
Abaixo poderemos ter acesso aos comentários a respeito de ideias ligadas ao tema da morte assistida, acontecimentos e as supostas frases ditas por Daniel Kahneman com relação a decisão de dar fim a própria vida e a materialização do acontecimento quanto ao seu suicídio assistido (“assistido” como uma porcaria de eufemismo para “morte acompanhada”). Segundo uma reportagem que pode ser acessada pela internet, “Kahneman escolheu recorrer ao suicídio assistido na Suíça em 27 de março de 2024, aos 90 anos. Na ocasião, ele ainda apresentava condições físicas e mentais relativamente boas, segundo relatos de pessoas próximas”, escreveu J. Zweig, jornalista, uma decisão controversa que “teria sido motivada por uma doença terminal publicamente conhecida, mas principalmente pelo desejo de evitar o declínio e o sofrimento que ele associava à velhice avançada”. A reportagem do The Wall Street Journal levanta, implicitamente, uma questão importante: o conhecimento profundo sobre as falhas do julgamento humano torna alguém mais capaz de tomar o que supostamente poderia ser “a melhor decisão sobre a própria morte?”. Não necessariamente. Segundo Kahneman “A especialização em psicologia da decisão não elimina as incertezas, os vieses ou os limites do conhecimento sobre o futuro”.
Kahneman se despediu de sua família e voou para a Suíça no dia 26 de março de 2024. Seu e-mail explicou o motivo: “Esta é uma carta de despedida que estou enviando aos amigos para dizer que estou a caminho da Suíça, onde minha vida terminará no dia 27 de março”. Kahneman havia passado sua longa carreira estudando as imperfeições e inconsistências nas tomadas de decisões por seres humanos. Segundo a maioria das pessoas que o conheciam, Kahneman ainda estava gozando razoavelmente de boa saúde física e mental quando decidiu morrer.
Sua morte foi amplamente lamentada, porém, apenas amigos próximos e familiares sabiam que ela havia acontecido em uma instalação de suicídio assistido na Suíça. Alguns ainda têm dificuldade em aceitar que essa foi a decisão dele. A morte de Kahneman levanta questões profundas: “como o maior especialista do mundo em tomada de decisões tomou a decisão final? O quanto ele seguiu seus próprios preceitos sobre como fazer boas escolhas? Como sua decisão se encaixa no crescente debate sobre os pontos negativos da longevidade extrema? Quanto controle nós temos, e deveríamos ter, sobre nossa própria morte?”, essas foram questões levantadas pela reportagem do W.S. Journal. “Antes das pesquisas inovadoras que Kahneman conduziu, os economistas há muito tempo partiam da premissa de que os seres humanos eram racionais. Com isso, eles queriam dizer que as crenças das pessoas são internamente consistentes, que elas tomam decisões com base em todas as informações relevantes e que suas preferências não mudam. Em uma série de experimentos simples e brilhantes, Kahneman e Tversky (parceiro de Kahneman em suas pesquisas, falecido 1996) refutaram essa definição de racionalidade. Mas Kahneman nunca afirmou que as pessoas são irracionais. Em vez disso, ele argumentou que elas são inconsistentes, emocionais e facilmente enganadas – mais facilmente ainda, enganadas por elas mesmas”, continuou a reportagem. “A auto enganação ajuda a sustentar a maioria das pessoas”, anos atrás ele disse ao jornalista. “Em resumo, ele argumentava que as pessoas não são nem racionais nem irracionais; “elas são, simplesmente, humanas”. Vamos dar alguma atenção a esta frase, ela de fato é muito boa, e fica aqui a dúvida de que, sendo humanas, elas podem tudo? Até mesmo tirar a própria vida? Sim, infelizmente este é o acontecimento pontual que recai sobre algumas pessoas, “poder”, neste caso, significa capacidade de ação, mas não justifica que deve ser feito, talvez os motivos, as dores, as angústias possam explicar, possam justificar, possam até mesmo amenizar o peso de suas decisões, mas o fato em si não deixa de ser terrivelmente horroroso e presunçoso, só porque pode ser explicado ou justificado, continua sendo terrível e extremo. “Kahneman costumava dizer que décadas de estudo da mente humana o haviam ensinado a como reconhecer – mas não a evitar – as armadilhas da tomada de decisões”, infelizmente parece que para ele também não foi possível evitar isso.“Acho que Danny queria (Danny provavelmente era a maneira carinhosa como o repórter o chamava enquanto ainda eram amigos), acima de tudo, evitar um longo declínio, partir nos seus próprios termos”, aqui vale um comentário que cabe para todos nós, para a sociedade como um todo, essa é uma questão terrível que cerca muita gente que não percebe a armadilha de querer ser deus, o homem-deus quer dominar a vida e a morte, ter controle sobre sua própria morte e ou até mesmo sobre a morte de todos, mas se isso não for possível, quer ao menos ter controle total sobre si mesmo, nem que seja para morrer por decisão própria, obviamente que isso não é ter controle sobre a vida?! Quais tipos de controle um homem pode se regozijar por ser capaz de definir a própria morte? Este certamente é o controle mais estúpido que pode existir. “Talvez os princípios da boa tomada de decisão que ele tanto defendia – confiar em dados”, essa é mais uma das questões levantadas pelo repórter. Mas esse cientificismo de tentar diminuir a vida e reduzi-la a números, estatísticas, mensurações, parâmetros materialistas, estatísticas matemáticas, é só mais um dos inúmeros enganos de quem elege o gnosticismo como um tipo de deus ou religião que não pode ser contrariado. E o repórter continua “não confiar na intuição na maioria dos casos, ver as evidências da perspectiva mais ampla possível – tivessem pouco a ver com sua decisão”, aqui ele tenta novamente encontrar uma justificativa, algo realmente desnecessário, pois já foi feito, quando muito poderia servir para desestimular novos eventos. Mas a reportagem em si já é um tipo discreto de apologia a eutanásia, algo que certamente um bom Cristão sempre irá repudiar com veemência.
“Seus amigos e familiares dizem que a escolha de Kahneman foi puramente pessoal; ele não endossava o suicídio assistido para mais ninguém e nunca desejou ser visto como alguém que o recomendaria aos outros”, mas ao fazê-lo, tudo o que conseguiu foi concretizar um tipo de apologia, dizer que não fez apologia seria um enorme equívoco. Ele fez apologia, não diretamente, mas o que seria então a divulgação do próprio ato senão uma apologia ainda mais poderosa e destrutiva?! Nem precisaria sair por aí dizendo que era isso que as pessoas deveriam fazer nessa ou naquela situação, o ato em si já é maior das defesas deste absurdo. Segundo o repórter “alguns amigos de Kahneman acham que o que ele fez foi consistente com sua própria pesquisa”, ou seja, o mundo deve “julgar” de maneira positiva esse total absurdo em decidir quanto a própria morte porque um dos temas mais estudados por Kahneman era o processo de tomada de decisão, seria o mesmo que dizer que o inventor de uma bomba deve realmente ser capaz de explodir a si mesmo, assim, o mundo deve apoiar para que haja mais e mais seguidores? Parece que esta era a verdadeira intenção, sensibilizar e influenciar pessoas a cometer o mesmo ato. “Até o fim, ele era muito mais inteligente do que a maioria de nós”, disse Philip Tetlock, psicólogo da Universidade da Pensilvânia, assim ele pôde deixar definido o que todos nós também deveríamos fazer com nossas vidas? Mas obviamente sem dizer isso de maneira direta, esse foi o legado? Com certeza não, não somente a sua vida ficou manchada, mas o seu trabalho também foi contaminado por sua decisão final, pois senão formos capazes de determinar limites, como poderemos tomar decisões acertadas? “Mas eu não sou um leitor de mentes. Meu melhor palpite é que Kahneman sentiu que estava caindo aos pedaços, cognitiva e fisicamente. E ele realmente queria aproveitar a vida e esperava que a vida se tornasse progressivamente menos agradável. Suspeito que ele tenha feito uma espécie de cálculo hedônico de quando os fardos da vida começariam a superar os benefícios – e provavelmente previu um grande declínio a partir dos seus 90 e poucos anos.”, e Tetlock ainda acrescentou: “Eu nunca vi uma morte tão bem planejada quanto a que Danny desenhou.”, se o assunto não fosse tão pesado, tão sério, alguém poderia dizer em tom jocoso… “que maravilha, tudo no controle, sempre!”. A humanidade sempre na crença de que somos capazes de controlar a tudo e a todos, qualquer coisa, até mesmo somos capazes de descobrir maneiras de como controlar a morte, a vida, até mesmo temos Deus sobre controle, e sabe-se lá mais o quê?!
Segundo a reportagem “A esposa de Kahneman, Anne Treisman, morreu de um derrame em 2018 depois de vários anos sofrendo de demência vascular. A doença dela foi profundamente dolorosa para Kahneman”, com certeza é sempre algo muito doloroso para todos, mas o que isso significa? Significa que podemos poupar os mais próximos de ter que sofrer? Assim, passamos a ficar desobrigados de lutar por nossas vidas? Mas ao contrário disso, não faz parte desta luta de sermos nós mesmos os responsáveis em levar a vida até o último instante?! Ele me escreveu em julho de 2015, “Estou muito preocupado com a saúde de Anne e não estou funcionando bem no geral.”, é claro, quem funcionaria bem em uma situação tão extrema, mas isso faz parte da vida, infelizmente ou não, dependendo do ponto de vista do próprio Kahneman,é possível decidir quem vive e quem morre, para isto basta começar por alguém, este foi o legado indireto que ele deixou. A vida não é outra coisa senão esse amontoado de contradições, qualquer tentativa de ser deus passa por um charlatanismo impressionante, e nenhuma mentira pode ser tão terrível do que a mentira que cometemos contra nós mesmos.
O repórter citou possuir em seus arquivos o primeiro rascunho de um capítulo que Kahneman esboçou no início de 2008 para “Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar” e assim ele o descreveu: “Durante sua última doença, minha mãe perdeu seu ‘eu’ que se lembrava das coisas… ela não poderia te contar muito sobre sua estadia atual no hospital porque lembrava tão pouco dela. Eu descobri com desgosto que eu sabia muito mais sobre o que ela passou do que ela mesma.”, não é o caso de se desfazer da dor de ninguém, não é esse o tema central deste artigo, mas novamente, uma pessoa que escreve esta frase não está exatamente preocupada com o que de fato estava acontecendo, pensa que sim, acredita que sim, mas será que estava mesmo preocupado com o outro ou apenas consigo mesmo? Pois parece que este mal atinge a todos os seres humanos, o mal de quem não sabe que está fingindo, pois o tema não circula no eixo do outro, mas sim do próprio ponto de vista, assim, na realidade o que vale são suas próprias impressões a respeito do tema, o egocentrismo de quem é capaz de decidir até mesmo a respeito da própria morte. Certamente que a maior derrota que a morte pode ter contra o ser humano está na capacidade inquestionável que alguns apresentam em lutar pela vida até mesmo nos piores momentos. Aqui segue algumas frases do escritor R.Zaos a respeito da vida pela vida, de ser a vida uma luta constante contra a morte:
“Não é possível vencer a morte se matando, mas sim desafiando a morte para uma luta impetuosa sempre em favor da vida”.
“É inconcebível a ideia de que se pode vencer a morte morrendo”.
“Não existe mérito algum em fazer algo em nome da morte!”. O repórter escreveu, “Kahneman continuava em seu e-mail final indicando que sentia que logo algo terrível poderia acontecer com ele em relação a sua capacidade cognitiva, ou pior, com relação ao sofrimento que costuma sofrer um paciente terminal”. Não é o caso de desrespeitar as decisões dele quanto ao que fazer quanto a própria vida, mas sim uma oportunidade em apontar que não somos deuses, não somos capazes de prever o futuro, não somos capazes de ter certeza daquilo que muitas vezes não passa de uma especulação, um achismo, muitas vezes somos conduzidos pelo medo, outras vezes pela vaidade, pelo egocentrismo, pela necessidade permanente em estar no controle, e tudo isto não poderia ter sido público, talvez até mesmo a família poderia ser protegida deste absurdo, e assim tudo poderia ter ficado em segredo absoluto, mas não foi isso o que aconteceu, de alguma maneira, tinha que se tornar algo público, uma apologia indireta a insensatez. “Eu sempre acreditei, desde adolescente, que as misérias e indignidades dos últimos anos de vida são desnecessárias, e estou agindo com base nessa crença”. E quem disse que a vida não é repleta de misérias e indignidades durante toda a vida, infelizmente não é exclusividade da velhice, durante o nossa jornada sofremos por perder a saúde, por perder amigos e familiares queridos, e muitas outras coisas, por inúmeras outras mazelas que alcançam a todos em suas vidas em momentos diferentes e em intensidades diferentes. Ou será que agora vamos eleger que a vida é algo que apenas tem valor quando temos saúde, alegrias, riquezas, e outras coisas mais? Obviamente que não. Sempre é mais fácil ter ideias materialistas de coisas mensuráveis, contabilizáveis, disciplinadas, controladas por planilhas, comparadas, etc… até mesmos as crianças já conseguem ser materialistas em tenra idade.
Aqui cabe uma ressalva importante, sim, é possível defender que Kahneman e qualquer ser humano devem possuir o direito de se indignar, de pensar em dar fim a própria vida, é algo lamentável, mas ninguém deve tirar esse direito de quem quer que seja, porém, também é possível não ser a favor desta ideia ignóbil e demente. Esse direito também deve ser reservado, o direito de se espantar com os absurdos que rondam o pensamento humano. O tema aqui defendido se concentra na questão de que nossas impressões, nossas capacidades de percepções sobre os eventos da vida não são, e, provavelmente nunca serão, suficientemente confiáveis a ponto de tomarmos decisões tão extremadas. Toda essa insanidade de pensamentos materialistas se sobressaindo contra o que não é material, simplesmente porque não é possível planilhar o que transcende a nós, ao que não pode ser visto, tocado, explicado. Em nome do quê? Em nome da morte? De uma falsa intelectualidade repleta de narrativismos, de retóricas nonsenses, de uma ideia absurda de “inteligência” a ponto de acreditar ser capaz de saber coisas a respeito do incognoscível? Do impossível? Do inalcançável? Não. Ninguém, sabe nada. Todos querem acreditar que sim, querem depositar em suas próprias crenças ideológicas os sentidos pré-fabricados com intenções conhecidas de controle, tudo telegrafado, influenciando todo tipo de gente, e isso não acontece porque os ideólogos possuem certeza de que suas ideias são verdadeiras, mas justamente porque sabem que suas mentiras acontecem por cima de uma camada incrível de coisas falsas. E enquanto agirmos com certeza a respeito de coisas que não podemos provar, serem ou não verdadeiras, e justamente por isso, justamente porque sabemos que é impossível descobrir se são ou não verdadeiras é que não devem ser realizadas.
O repórter continuou relatando que um dos princípios que Kahneman mais prezava era a importância de reconsiderar. “A maioria das pessoas odeia mudar de opinião, mas eu gosto de mudar de ideia. Isso significa que aprendi algo”, não, isso não garante nada, quando muito, demonstra uma capacidade de busca, de tentativa, de mutação, mas não de certeza alguma de aprendizado, nem mesmo de um mínimo de probabilidade de acerto. Kahneman adorava dizer, “Eu não tenho custos irrecuperáveis”, “ele sempre queria que as evidências e não a quantidade de esforço ou compromisso empregados anteriormente, determinassem suas crenças e ações”, escreveu o repórter. Aqui temos o cientificismo em cena, novamente, uma ideia não pode valer mais do que nenhuma vida, mas é isso o que as pessoas fazem, matam em nome de uma ideia. Algo neste mundo deve mesmo ser soberano a capacidade da humanidade, mas não é o que acontece, o pensamento humano não tem pernas e nem assas, mas gosta de correr sem limites e de acredita que voar.
Não devemos ter dúvidas de que a vida seja sempre soberana! Até mesmo nos piores momentos. “A vida era certamente preciosa para Kahneman”, mas na prática, ao final de tudo, ele negou a vida, pois, mesmo estando gozando de boa saúde, ele optou pela morte, então tudo não passou de palavras ao vento, afinal de contas, se nos piores momentos da vida você nega o que sempre disse defender, então é sinal de que tudo não passava de narrativas. A vida nos testa o tempo todo, e são nos piores momentos que demonstramos o que somos e o que de fato defendemos. “Eu ainda sou ativo, aproveitando muitas coisas da vida (exceto as notícias diárias) e morrerei um homem feliz. Mas meus rins estão à beira do colapso, a frequência das falhas mentais está aumentando e eu tenho noventa anos. É hora de ir”, e assim deus falou novamente, “eu” isso, “eu” aquilo, “eu” mando, “eu” faço”, e nesse momento o “eu” é deus.
“Kahneman havia completado 90 anos no dia 5 de março de 2024. Mas ele não estava em diálise, e aqueles próximos a ele não viam sinais significativos de declínio cognitivo ou depressão. Ele estava trabalhando em vários artigos de pesquisa na semana em que morreu”, escreveu o jornalista do W.S. jornal, Jason Zweig, se você só é capaz de entender o que você quer das coisas na hora da morte, então, a razão, a inteligência, os argumentos, o conhecimento, tudo perde o sentido, a vida passa a ser apenas o seu próprio umbigo, “doe a quem doer” assim, poderíamos dizer, então, de alguma maneira, seremos todos egoístas, mas que tipo de egoísmo podemos definir quando alguém está ao seu lado ainda gozando de saúde e ainda assim decide não querer mais fazer parte deste mundo? Ou seria mais egoísta quem te quer por perto, vivo, nos melhores e nos piores momentos? Nessa guerra entre egoísmos, sempre opto pela vida, pois na morte nem mesmo o egoísmo mantém algum sentido, tudo se acaba.
“Kahneman sabia da importância psicológica dos finais felizes. Em experimentos repetidos, ele demonstrou o que chamou de “regra do pico e término”: Se lembramos de uma experiência como prazerosa ou dolorosa não depende de por quanto tempo ela foi boa ou ruim, mas sim da intensidade do pico e do final dessas emoções”. Atéaí tudo bem, parece fazer bastante sentido, mas e daí? Isso nos dá o direito de querer sermos como deuses? Desta maneira ele faz parecer que somos como uma autarquia burocrática que define quem pode entrar e quem pode sair da vida? “Não surpreendentemente, alguns dos que me amam prefeririam que eu esperasse até que fosse óbvio que minha vida não vale a pena ser estendida”, a tentativa permanente em controlar a vida como quem tenta controlar uma máquina, um processo, uma conta corrente, um fluxo de caixa. “Mas tomei minha decisão justamente porque queria evitar esse estado, então tinha que parecer prematuro. Sou grato aos poucos com quem compartilhei isso antecipadamente, todos os quais, relutantemente, terminaram se dispondo a me apoiar.”, não vou permitir que sofram?! Mas vou permitir que se orgulhem do sofrimento antecipado, como quem tenta adivinhar os números de um sorteio de loteria, mas sem a possibilidade de tentar jogar os dados novamente, a morte nunca é uma solução, a vida sim.
Na reportagem Zweig faz essa citação; “A amiga de Kahneman, Annie Duke, teórica das decisões e ex-jogadora profissional de pôquer, publicou um livro em 2022 chamado “Quit: The Power of Knowing When to Walk Away” (Desistir: é Libertador Saber Quando se Afastar). Nele, ela escreveu: “Desistir na hora certa geralmente vai parecer desistir cedo demais.”, sim, mas apenas no desenrolar dos fatos é que saberemos se foi ou não o momento correto ou ao menos o melhor momento? Mas com a vida não é assim, é impossível saber com antecedência se vamos morrer agora ou daqui há alguns minutos, se vamos ou não ficar dementes agora, depois ou nunca, é como o oposto daquela ideia que temos no Brasil quando falamos de “um engenheiro de obra pronta”, quando uma pessoa dá palpites para algo que já foi terminado, tentar antecipar os resultados é como saber de antemão como ficar rico na loteria jogando sempre com a aposta mínima, é impossível saber antes, quando muito estamos falando apenas de probabilidades, não de certezas.
“Em seu último e-mail, Kahneman continuou: “Não estou envergonhado pela minha escolha, mas também não estou interessado em transformá-la em uma declaração pública””, mas mesmo assim foi isso o que aconteceu, e certamente ele sabia que isso iria ou poderia acontecer do jeito que foi publicado, pois só há uma maneira de conseguir manter um segredo intacto entre três pessoas, ou seja, não conte a ninguém ou talvez “tenha” que matar as outras duas pessoas que sabem do assunto. “A família evitará detalhes sobre a causa da morte tanto quanto possível, porque ninguém quer que seja o foco nos obituários. Por favor, evitem falar sobre isso por alguns dias.”, mas não para sempre, se faz necessário que todos saibam desse meu “grande feito”.
“Embora o suicídio assistido continue ilegal na maioria dos países, está em ascensão”, continuou o jornalista, e vale a pena reforçar, “assistido”???, que palavra bonita!Faz parecer que está tudo bem, porque estamos sendo acompanhados, observados, cuidados, que tipo de cuidado alguém pode ter por seu carrasco no ato de ser executado, morto, assassinado?! “Ascensão”?! Outra palavra bonita, outra palavra da moda, e assim como os óculos de sol mudam de tendência, até o ano que vem, até a próxima estação, até o século que vem, outros absurdos estarão na moda, estarão em ascensão, qual vai ser o próximo passo? Obter legalmente o direito de matar pessoas?! Não devemos duvidar de nada disso, e infelizmente devemos fazer tais elucubrações, pois somos capazes de normalizar todo o tipo de absurdo, não devemos duvidar de que coisas piores podem acontecer. “O suicídio assistido é legal na Suíça se o paciente estiver com a mente sã, tiver pelo menos 18 anos e as motivações daqueles que assistem não forem egoístas”, relata o repórter, mas o egoísmo estará presente em alguém em todos os lugares, isso é muito humano, o que isso significa? Que devemos defender que sejamos todos egoístas? E se o egoísmo não estiver presente no suicida, certamente que estará presente em seu círculo de amigos e familiares, sempre estará presente de alguma maneira. “O paciente deve autoadministrar a dose letal”, assim, o assassinato deverá ser cometido por aquele que não poderá mais ser punido por seu próprio crime. “Além do potencial para abusos, acho que a razão para a ambivalência é óbvia. Se você terminar sua vida prematuramente, antes de estar com dor aguda ou declínio mental, você se protege e protege aqueles que ama do sofrimento iminente”, uma vida totalmente livre de sofrimento certamente que será a vida mais sofrível de todas, de fato ninguém está aqui tentando relativizar a dor de quem quer que seja, mas ao tentar controlar até mesmo essa capacidade de percepção da dor, seja em si mesmo ou nos outros, o máximo que uma pessoa vai conseguir é sentir ainda mais dor e ser ainda mais infeliz. E isso “também expõe seus entes queridos à dor de sua ausência, de nunca entender completamente sua escolha e de não terem sido escutados”, enfim alguma ideia que não seja totalmente estúpida ou apenas egoísta, mas o que e fato tem valor? Estar um segundo a mais ao lado de quem se ama ou partir logo? Livrar-se da dor o quanto antes ou desfrutar de mais alguns minutos ao lado de quem amamos? Aqui vale ressaltar novamente que devemos respeitar o que cada pessoa pensa e decide a respeito da própria vida, mas deixar de dar um parecer contrário diante deste absurdo, que é o tema da eutanásia ou do assassinato acompanhado (sem eufemismos), isso não podemos deixar passar em branco, não devemos deixar de externar nenhuma opinião contra os absurdos destas ideias, a fim de que não se tornem práticas comuns, devemos defender a vida, sempre! Não é possível acreditar em “meio-termo” e ficar relativizando, ninguém está dizendo que é fácil, mas certas portas, depois de abertas, ficam mais difíceis de serem fechadas, e ainda que o mal sozinho já se espalha com enorme velocidade, imagine se resolvermos ajudá-lo?!
“Como continuou o último e-mail de Danny: “Descobri, depois de tomar a decisão, que não tenho medo de não existir””, mesmo porque depois dessa aberração ter se concretizado, você e ninguém mais poderá sentir nada, nem mesmo quanto a dor, e menos ainda com relação a alegria ou a tristeza, “e que vejo a morte como dormir, e não acordar”, não faz diferença o que cada pessoa pensa a respeito da morte, pois somente poderá fazê-lo em vida, por isso, é mais importante o que pensamos a respeito da vida, não da morte, pois até que se prove o contrário, morto não pensa, então, morte é um conceito que só pode ser abordado por quem está vivo, pense um pouco no quanto isso é significativo. E veja a vida como quiser! Ela é sua, mas não faça apologia a morte, de nenhum tipo. A vida é sua, e isso não muda o fato de que não devemos interferir em tudo, deve existir sempre algumas coisas ou temas dos quais fogem do nosso controle de ação, caso contrário, seríamos deuses, e esta é uma certeza da qual podemos ter, a certeza de que não somos deuses. Podemos interferir em uma enormidade de coisas, mas não em tudo. É preciso entender que existem limites que não devem ser ultrapassados, não por proibição, mas porque não sabemos se existe um caminho de volta, e novamente, não porque sabemos no que vai dar, mas justamente porque não sabemos. “O último período não foi verdadeiramente difícil, exceto por testemunhar a dor que causei aos outros”, e por isso devemos causar algum outro tipo de dor, que é o de ser responsável pela nossa própria morte?! Isso não faz nenhum sentido prático ou real. “Então, se você estiver inclinado a sentir pena de mim, não sinta.”, de fato, não devemos sentir pena de ninguém, mas é possível ficar indignado com certas decisões, afinal de contas somos capazes de racionalizar tudo, até mesmo de chamar de razão o que não passa de uma estupidez emotiva tentando disfarçar os sentimentalismos. Pior do que os sentimentalismos puro e sincero, é o sentimentalismo racionalizado, tentamos mudar a embalagem, mas o produto continua o mesmo, piegas, pobre, e ainda muito ruim. À medida em que a morte se aproximar, devemos aproveitar ao máximo o tempo que temos com aqueles que mais amamos? Sim, com toda certeza. Ou devemos poupá-los de tais possibilidades? E quanto a nós mesmos, devemos nos ausentar da vida o máximo possível, destruir a vida em nome do quê? A fim de evitar o inevitável, o nosso declínio é coisa certa, redundantemente inevitável?! Já não seria essa interferência o maior dos declínios?! Cabe somente a nós mesmos decidir a respeito da nossa morte? Certamente que não cabe decidirmos sobre nossa morte, mas sim sobre nossas vidas, e isso muda tudo. Mas ainda assim é possível defender que possamos fazer o que quisermos, mas, e, quanto as consequências? Mesmo quando são desconhecidas ou mesmo não imaginadas, as consequências são acontecimentos inevitáveis, sempre existirão consequências, a vida jamais deveria estar sob o nosso controle de maneira negativa, que não seja para se manter vivo, nunca para destruir, não nessa dimensão. “Danny me ensinou a importância de dizer “eu não sei.””, mas mesmo assim devo fazer algo com o que eu não sei?! Isso não parece contraditório? Se eu não sei, o que devo fazer? Se não acredito em Deus não tenho para quem rezar, se sou deus na Terra então posso dar cabo da minha própria vida?! “E obviamente que ninguém sabe as respostas para essas perguntas. Eu sei, sim, que as últimas palavras do seu último e-mail parecem certas, mas de alguma forma ainda soam erradas: “Obrigado por ajudar a fazer da minha vida uma boa vida.””, terminou assim a reportagem de Jason Zweig, ou seja, poderia também dizer “obrigado por fazer parte da minha morte”, mas que merda é essa?! Uma grande porcaria não deixa de ser o que é, principalmente quando tentamos interferir desta maneira, assim, tudo se torna ainda mais inacreditável e insuportavelmente materialista.
Legado? Que legado pode ser este relacionado a um acontecimento absurdo no qual o último ato de um homem é o ato de tirar a própria vida? Triste legado!