A comunicação utilizada pela filosofia quanto aos resultados obtidos em sua busca pela verdade se dá basicamente pelo uso da linguagem verbal, porém, as palavras são apenas representações criadas e utilizadas por meio da mente humana que tenta apreender, registrar o que entendeu como sendo a realidade, e independentemente do quanto consegue chegar próximo ao que é verossímil (isso não significa a certeza de ter conseguido chegar ao objetivo), a filosofia deve atuar sempre no campo do possível, caso contrário devemos ir para a literatura. Não existem vários tipos de filosofias; filosofia literária, filosofia fantástica, filosofia científica, a verdadeira filosofia é uma só, por isso, dentro de seu campo de atuação é importante que saibamos a diferença entre o real e as inúmeras tentativas de interpretação e representação da realidade que geralmente ocorrem por meio das palavras, talvez por isso seja tão fácil para alguns pensadores cair em tentação se utilizando de fantasias vocabulares, verborragias alucinatórias em que praticam a falsa filosofia, alguns pretensos filósofos, reis da prolixidade, com certo prazer mórbido em causar confusão por meio das palavras, por muitas vezes parecem não dizer nada com coisa alguma. Palavras isoladamente não são e nunca poderão ser a realidade em si, quando muito, são excelentes ferramentas de representação e interface de comunicação entre o “eu” e o “outro”, e esse “outro” pode ser uma pessoa presente ou apenas um leitor ou ouvinte distante. O “eu” sempre deve estar presente por meio do ato de pensar, não existe filosofia sem um “eu” pensante. O universo da filosofia transita pelo universo da palavra, mas existe um limite para isso? Obviamente que não, porém, quanto mais distante da realidade, menos se mostra como uma filosofia realista em busca da verdade, e mais se aproxima do universo das artes literárias onde a fantasia e a ficção tomam o lugar da realidade. Não há quem seja capaz de determinar esses limites sem cair em verbalismos, o que vale mesmo é o bom senso.
A linguagem, com o encadeamento de palavras, tem mais ou menos o poder de te afastar ou de te aproximar da realidade, tudo não passa de tentativas que geram sensações que realmente podem ser muito próximas ou muito distantes da realidade, fidedignas ou falsas, verdadeiras ou enganosas, devemos saber e reforçar de antemão que as palavras jamais serão a realidade em si, serão sempre e apenas representações. Com as palavras formamos frases, e com as frases temos a esperança de compreender o mundo e de sermos compreendidos por quem está no mundo, algo que raramente acontece. Nosso cérebro não lida muito bem com as incertezas, e em determinadas situações, por aproximação, tenta se apoiar em realidades possíveis, e geralmente faz isso com maior frequência e segurança quando acredita que está lidando com algo relacionado com o mundo físico, tátil, material, pois este costuma ser mais verossímil do que o mundo virtual, e assim, a mente acaba por ignorar o próprio autoengano. O que está distante ganha em possibilidades de ser apenas uma dissimulação, podendo ser apenas uma vertigem, porém, o que é verbalizado ganha em assertividade até mesmo do que está próximo, mesmo que de maneira ilusória, a realidade passa a ser algo mais inteligível quando está ao alcance das mãos, ou seja, esse é mais um tipo de auto sabotagem, a mente é enganada e se deixa enganar por meio dos sentidos, mesmo assim ainda dá preferência por acreditar mais facilmente que a realidade está naquilo que pode ser explicado ou demonstrado por palavras, e que nem sempre precisa necessariamente ser algo que esteja próximo, assim, em uma hipotética hierarquia das crenças, não importa a maneira, passiva ou ativa, a mente tanto pode enganar ou se deixar enganar pela materialidade das coisas, mas as palavras ganham do que é material, mesmo quando o objeto físico está próximo, sendo que, o que está próximo e é material, ganha do que está distante, na mente humana a ideia de matéria só consegue disputar espaço com outra ideia de matéria (na mente tudo é ideia), e a preferência é sempre do que está mais próximo, no mundo da imaginação humana, o que é material perde de goleada para o que é verbal. Dito de outro modo, potencialmente a palavra é o que mais mexe com o imaginário humano, e o que está na mente ganha em probabilidade e assertividade de tudo aquilo que ainda não foi bem representado, nem por imagens, nem por outras palavras. O que está distante pode até mesmo chegar a ser considerado como inexistente, ou porque ainda não foi cooptado pela mente, ou porque não pôde ser tocado, assim, na mente, as palavras perdem espaço para outras palavras, e o mundo físico passa a ser secundário. Por isso todo materialista entra em contradição quando abre a boca, porque não consegue explicar a matéria senão por meio das palavras, e o que de mais abrangente detêm poder no imaginário humano? Justamente as palavras.
A palavra por si só já é a presença inexorável do transcendental, sem o uso da palavra a matéria não pode ser explicada.
O ser humano não costuma se sentir confortável diante do desconhecido, e talvez por isso prefira acreditar em falsas realidades do que ficar duvidando de tudo o tempo todo como meio de tentar chegar a verdade, é mais fácil encontrar quem acredita em coisas absurdas do que encontrar quem seja capaz de ficar questionando tudo em busca de informações mais ajustadas, por outro lado, há quem permaneça o tempo todo questionando até mesmo aquilo que está segurando nas próprias mãos; “será que esta caneta que está em minhas mãos existe mesmo ou estou apenas imaginando que existe?”. Enquanto que a pessoa que prefere não duvidar acaba por acreditar com mais facilidade que as palavras são a própria realidade em si, não havendo espaço para muitos questionamentos, afinal de contas, a resposta pode não ser conclusiva, ou pode até mesmo negar a impressão do que a realidade está apresentando como coisa certa, e neste caso, o que fazer? Uma pessoa assim talvez tenha medo de enlouquecer, então, mesmo que em poucos instantes suas impressões sejam negadas, logo ela se agarra a outras impressões, e assim por diante, sucessivamente, como se fosse um equilibrista em uma corda bamba, segundo a segundo tentando não cair no penhasco. A busca pela realidade e pela verdade fica comprometida, a satisfação de uma necessidade passa a ser mais importante do que a percepção da própria realidade em si.
A filosofia possui muitos desafios além de ter que lidar com a psiquê humana e suas impressões, a verdade mostrada por meio do encadeamento de palavras passa a ser um tipo de equação matemática, assim, a lógica pode ser descrita como a tentativa humana de matematização da realidade por meio da palavra (a lógica é a matemática da palavra), e que, sendo a palavra a principal ferramenta de comunicação entre os humanos; ganha, toma, modifica, sequestra, conquista ares de superioridade na tentativa de representação da verdade, com isso a verborragia ganha espaço, como é o que acontece com boa parte dos filósofos modernos, principalmente aqueles que, de uma maneira ou de outra estão ligados ao desenvolvimento de filosofias materialistas, e que direta ou indiretamente favorecem o materialismo, como Kant, Hegel, Heiddeger, Comte, Marx, Engels, Sartre, Hobbes entre outros (lembrando que o mal sempre nega a existência do mal, assim, o materialista prefere negar o próprio materialismo). E não podemos nos esquecer jamais, filósofos também são pessoas, e pessoas são imperfeitas, erram, se equivocam ou podem se deixar levar inconscientemente por vontades submersas, e ainda tem a questão dos sofistas, falsos filósofos que apesar de possuir alguma inteligência e excelente nível cultural preferem brincar com as palavras e com a capacidade de entendimento das pessoas do que se utilizar de seus conhecimentos em benefício da humanidade. Na verdade, muitos são sádicos, cínicos no pior sentido, fingidos e muito afeitos ao próprio ego, por isso não sentem nenhum desconforto em mentir se utilizando de joguinhos vocabulares, seus palavrismos são usados para a prática da arte do engano.
O filósofo Ortega Y Gasset em seu livro “O que é Filosofia?” aponta que o ser humano tem na filosofia uma atividade vital e uma busca pelo “ser fundamental” no mundo. Muitas pessoas se esquecem ou não sabem que a filosofia difere da ciência, pois se trata de uma busca pelo conhecimento e pela verdade de maneira teórica, hipotética, lidando mais com o que é transcendental e qualitativo e menos com o que é quantitativo e mensurável, coisas das quais a ciência tanto depende. Na filosofia de Ortega Y Gasset a vida de cada um é considerada como a “realidade radical”, onde a base de tudo é o ato de viver. Ele ainda propõe que a razão está a serviço da vida e não o contrário, e por isso coloca a razão como raciovitalismo, uma “razão vital”, necessária, porém acessória (nota minha), e que o indivíduo não pode ser entendido isoladamente, pois o “eu” não pode ser indissociável do seu entorno (circunstância), deste raciocínio surge a frase “Eu sou eu e minha circunstância”. O pensamento humano funciona diante de um esforço constante em busca de lucidez e da possibilidade do agir com autonomia e com autenticidade, por isso, filosofar não é um luxo, mas uma necessidade vital em busca de orientação.
Diante dos avanços das falsas filosofias, todo o entorno fica comprometido em um jogo quase inútil de quem, por um lado, fica praticando filosofismos materialistas repletos de racionalismos e pirotecnias sem sentido (por puro sarcasmo), e para isso dependem exclusivamente de se utilizar das palavras, e por outro lado, tem quem consiga provar que existe algo de verdadeiro no mundo, mesmo que só consiga demonstrar isso também por meio das palavras.
A verdade e a mentira continuam separadas percorrendo as curvas dos mesmos rios, mas muito raramente parecem estar próximas, quando muito, por meio das palavras, a verdade tanto pode desaparecer como tomar conta de tudo. Para finalizar, não devemos desistir de nossa busca pela verdade, e não podemos nos esquecer da frase, supostamente atribuída a Aristóteles; “A palavra cão, não morde!”, assim, jamais devemos temer a verdade.
Philosophy and Its Demons
The communication used by philosophy regarding the results obtained in its search for truth is basically through the use of verbal language. However, words are only representations created and used by the human mind that tries to apprehend and record what it understood as reality, and regardless of how close it can get to what is credible (this does not mean the certainty of having reached the goal), philosophy must always act in the field of the possible, otherwise we must go to literature. There are not several types of philosophies, such as literary philosophy, fantastic philosophy, or scientific philosophy. True philosophy is only one, so within its field of action it is important that we know the difference between the real and the innumerable attempts at interpretation and representation of reality that usually occur through words. Perhaps that is why it is so easy for some thinkers to fall into temptation using vocabulary fantasies, hallucinatory verbiage in which they practice false philosophy. Some would-be philosophers, kings of prolixity, have a certain morbid pleasure in causing confusion through words, and often seem to say nothing at all. Words alone are not and can never be reality itself. At best, they are excellent tools for representation and a communication interface between the “I” and the “other”, and this “other” can be a person present or just a reader or listener. The “I” must always be present through the act of thinking; there is no philosophy without a thinking “I”. The universe of philosophy moves through the universe of the word, but is there a limit to this? Obviously not, but the more distant from reality, the less it shows itself as a realistic philosophy in search of truth, and the more it approaches the universe of literary arts where fantasy and fiction take the place of reality. There is no one who is able to determine these limits without falling into verbalisms, what really counts is common sense.
Language, with its string of words, has more or less the
power to distance you from or bring you closer to reality. It is nothing more than attempts
that generate sensations that can be very close or very distant
from reality, reliable or false, true or misleading. We must know and
reinforce beforehand that words will never be reality itself, they will
always and only be representations. With words we form sentences, and with sentences
we hope to understand the world and be understood by those who are
in the world, something that rarely happens. Our brain does not deal very well with uncertainties,
and in certain situations, by approximation, it tries to rely on possible realities,
and usually does so more frequently and confidently when it believes it is
dealing with something related to the physical, tactile, material world, as this tends to
be more plausible than the virtual world, and thus, the mind ends up ignoring
its own self-deception. What is distant gains in the possibility of being just
a pretense, it may be just a vertigo, but what is verbalized
gains in assertiveness even over what is close, even if in an illusory way,
reality becomes something more intelligible when it is within reach,
that is, this is another type of self-sabotage, the mind is deceived and allows itself to be deceived
through the senses, yet it still prefers to believe more
easily that reality is in what can be explained