A união entre as pessoas é circunstancial, ocorre por diversos motivos, tende a ser mercantilista quando acontece apenas para a própria satisfação, e dura até o momento em que ainda houver possibilidades de retorno, ocorrência de benefícios, interesses particulares diante de um resultado financeiro ou da possibilidade de haver reversão parcial ou total de algum prejuízo, neste tipo de relação sempre há algum interesse material por trás. Somente na família essas relações são mais verdadeiras, possuem mais essência e extrapolam a questão material, costumam ser mais humanas e raramente são mercantilistas, não há elo mais forte do que o que normalmente acontece nas ligações familiares, mas quanto ao restante, geralmente são circunstanciais. Fora da família aumentam as chances de as relações serem mais materialistas por meio de interesses particulares que podem acontecer em alta intensidade de enganos e elevado grau de egoísmo, pessoas assim estão por todos os lados. Quanto mais materialista for a pessoa, maior é o foco no resultado a fim de obter recompensas tangíveis, a possibilidade de haver trocas mais justas e equilibradas vai se esvaindo, e o que é o mundo senão um amontoado de possibilidades de trocas, boas ou ruins?! Assim, focando apenas no que é material, as motivações pessoais de valores vão dando lugar a números, esquemas financeiros, possibilidades matemáticas de acumulação de matéria em detrimento do que é humano, o desamparo mútuo vai roubando o lugar da empatia, do altruísmo, da benevolência, das paixões saudáveis, as possibilidades de amor pelo outro vão dando lugar a um tipo de “amor” egoísta voltado apenas e cada vez mais para si mesmo, isso sem contar a questão da inveja.
O homem é potencialmente um egoísta que não vive sozinho, e ao mesmo tempo, de maneira muito contraditória, vive apenas para si mesmo, esse é um dos paradoxos mais complexos e confusos da humanidade, e além do mais, não tem fim, pois quanto mais egoísta for a pessoa, menos ela se preocupa com os outros, e em contrapartida, menos consegue viver sozinha. Assim, ser capaz de viver sozinha pode ser um dos atos menos egoístas que uma pessoa pode demonstrar, mas essa ideia não é garantia de nada, é só uma teoria baseada na observação, pois existe um tipo de egoísta esquizofrênico que não gosta nem de si mesmo, e isso nem é tão raro assim.
Isso tudo não é só uma dicotomia repleta de contradições absurdas, pura incongruência em si mesma e ainda auto aniquilante, potencialmente suicida, é muito pior do que tentar morder o próprio rabo como um tipo de autodefesa, pois inconscientemente, boa parte da humanidade está disposta a destruir ou até a matar em nome de certas contradições, tudo em busca de satisfazer apenas o próprio umbigo.
O homem odeia a possibilidade de não ser amado e por muitas vezes ainda odeia sentir que ama outra pessoa sem a devida contrapartida (a maioria das pessoas negam isso com muita convicção, o motivo parece óbvio), e pior, se conseguir ter a certeza que ama, sem ser amada, aí…?! Aí fica ainda mais difícil! Muitas pessoas se descontrolam ao extremo. Não havendo a devida contrapartida de seus sentimentos e ações, de uma maneira ou de outra, física, moral e espiritualmente, há uma forte tendência a tentar tirar do caminho qualquer um que ouse não reconhecer sua suposta grandeza, e isso ocorre de maneira tão articulada e dissimulada que ao ler esse texto muitos já vão de imediato estrebuchar diante de tamanha ousadia deste autor que (evidentemente com algum tipo de desespero existencial, e também sendo um pouco suicida por escrever algo a esse respeito), ao tentar retratar tal situação, e mesmo sem apontar ninguém em específico, já deve facilmente ser alvo de algum tipo de ódio.
O problema é catastrófico, autodestrutivo, improdutivo e profundamente desesperador, pois vai na contramão dos ensinamentos do cristianismo, o mesmo cristianismo que muitas pessoas dizem seguir e que, sem tentar fazer uma relação prática e direta de seus próprios atos com os ensinamentos deixados pelo homem mais importante que já passou pela Terra, acabam caindo em contradição, pois um seguidor assim não deixa de ser um tipo de herege.
O desamparo mútuo ajuda a destruir aquilo que muitos dizem que estão tentando salvar, é como o ato de matar a rosa que é arrancada da roseira, não porque ela é feia, mas porque é bonita demais.