A contragosto um Jovem herdeiro assumiu uma pequena plantação de jiló da família, já havia muitas décadas que seu pai estava imbuído desta produção da qual fazia tudo com muito orgulho, ele considerava como uma enorme e importante iguaria do nordeste do Brasil, seu trabalho abastecia quase toda a cidade e mais a região de seu entorno, ele nunca saiu de sua cidade natal da qual jamais pensou sequer em se ausentar para um rápida viagem, ele não conhecia o mundo, e isso não o fazia infeliz, ao contrário, orgulhava-se de ser fiel à sua terra, e por meio desse amor ele criou seus filhos com esse fruto amargo que, para muitos, é algo difícil até mesmo de ser experimentado, quanto mais de ser usado como meio de vida, o jovem cresceu tendo o jiló como parte da sua alimentação. Mas para a maioria das pessoas, usar jiló nas refeições do dia a dia?! Nem pensar!
O Jovem não queria voltar, havia aprendido muitas coisas na cidade grande de onde jamais gostaria de ter saído, mantinha consigo o sonho de se tornar um homem rico, e estando ciente de que isso ficou mais distante, depois de ter voltado para suas origens, um certo ressentimento surgiu em seu coração. Imbuído de um espírito controverso, resolveu que faria qualquer coisa para ficar rico, mesmo estando em um lugar tão simples e limitado em termos de recursos financeiros com pouco desenvolvimento em outras áreas como comercial e industrial. Depois de muito tempo aprendendo a respeito do jiló e desenvolvendo melhor os produtos que poderiam ser feitos com sua produção e colheita, o Jovem percebeu que antes de tudo o desafio estava em quebrar uma cultura em que muitas pessoas não se permitiam sequer a experimentar qualquer coisa feita com jiló; doces, pratos típicos, alimentos diversos, bastava estar escrito a palavra jiló e muitas pessoas já “entortavam o nariz”, demonstrando não haver a mínima possibilidade de colocar aquilo em suas bocas.
Primeiro o Jovem, agora produtor e desenvolvedor de produtos a base de jiló, tentou apenas com suas frágeis jogadas de marketing indicar para as pessoas as características e os benefícios do produto, e isso não deu muito certo. Depois ele tentou apelar para imagens mais chamativas, propaganda pura na veia, fotos bonitas, produtos bem elaborados, vídeos curtos tentando passar uma imagem de elegância, de bom gosto, de sofisticação, as coisas foram melhorando, mas melhorou muito pouco. A região que recebia muitos turistas, não acontecia em número suficiente para absorver o resultado do que era produzido, de maneira geral ele continuava vendendo para as mesmas empresas de sempre, bares da região, restaurantes muito simples, e família nordestinas que consumiam o produto, mas tudo de maneira ainda muito precária.
O terceiro passo foi mais ousado, suas propagandas começaram a se utilizar de temas mais abrangentes, usando palavras como preconceito, vergonha, e até crime, tentando fazer parecer que o não-gostar de jiló era um ato jilófóbico, suas mensagens tentavam fazer parecer que a pessoa que não gostava de algo era como uma atitude de puro preconceito, deixando tudo da maneira mais negativa possível, assim, era como se ele dissesse indiretamente que as pessoas não tinham mais o direito de não gostar disso ou daquilo, fazia a palavra preconceito ganhar outro sentido, quando na verdade ele estava falando de discriminação querendo dizer que isso seria algo como cometer um crime ao tentar impedir que o jiló entrasse nas casas das pessoas, impedir que fosse servido nos restaurantes, que fosse como um alimento proibido por preconceito, algo que nunca correspondeu a verdade, isso nunca aconteceu da parte de ninguém em lugar algum. Mas para isso, para obter sucesso em sua empreitada ideológica, disfarçada de campanha de conscientização contra o preconceito, ele não podia dizer diretamente para as pessoas: “Você não tem o direito de ter ideias próprias! Preconcebidas!”. “Você não tem o direito de gostar disso ou daquilo!”. Assim, ele conseguiu que as pessoas passassem a desprezar quem não gostava de jiló, era como um selo de uma falsa virtude, muitas pessoas passaram a consumir o jiló em vários tipos de pratos só para não serem acusadas preconceituosas. O último passo foi criminalizar o gosto das pessoas, e quem fosse acusado de não comer jiló estava em sérios apuros, quem fosse acusado de não gostar do jiló passou a sofrer perseguições políticas, muita gente parou até de conversar a respeito de diversos temas com medo de ser indiciado por jilófobia.
O Jovem produtor, ainda sem nome para o nosso leitor, tinha muitos talentos, mas sendo utilizados para o mal, ele criou slogans que poderia facilmente ajudar a identificar o fascismo alimentar de seus opositores, os slogans eram a respeito de gostar ou não disso ou daquilo, e com palavras engenhosamente encaixadas para transmitir outras coisas diferentes do que realmente eram suas verdadeiras intenções, o Jovem escondia assim o verdadeiro teor de suas ações: “Se não gostar de jiló, você vai ser preso!”. Ao fim, muitos sofreram perseguições, obviamente injustas.
O Jovem revolucionário, que virou empresário, obteve muito sucesso comercial em sua empreitada, mas certamente que com isso o mundo se tornou um lugar quase insuportável de se viver, afinal de contas, gosto não se discute! Jiló não é laranja! E preconceito não é a mesma coisa que discriminação!