Pensar, analisar, refletir com relação a buscar uma alternativa para tudo o que Perfídia está vivendo não lhe transpareceu ser uma ideia razoável. Em um primeiro momento, nenhuma boa alternativa se revelou ao alcance, nenhuma alternativa nem mesmo boa e tão pouco coerente, não nesse momento em que todos estão mais felizes do que o habitual. Perfídia não sabe explicar o que está sentindo enquanto percebe faltar-lhe o ar e pensa que poderia existir um sentimento do qual ninguém jamais ousaria pronunciá-lo com uma simples palavra – “tristeza…” – e assim, quase sem expressar movimento, com o tempo ecoando como num sonho em que não faz sentido algum a possibilidade de dispersão do som em meio ao nada; “um grito em que ninguém jamais irá ouvir… um grito inútil!”, sem querer apareceu em sua face uma expressão nova, e ela manteve essa expressão ainda com um riso amarelo e sem graça. Sem saber de onde surgiu tal palavra, ela quase gritou consigo mesma o advérbio mais simples que surgiu à sua mente – “jamais”. Só assim percebeu estar de fato acordada, o que não lhe proporcionou nenhum conforto para o momento ou mesmo nenhum discernimento indicando alguma possibilidade de ação. “As palavras surgem do nada…! O sentido precede a essência?”, ela repete em pensamento ideias e frases que nem sempre sabe quem as fez e nem compreende muito bem o que significam. “Não! As palavras surgem depois que a essência se revela! Se revela por meio das palavras?!”.
“Sim, eu estou triste!”, conclui. Sentindo-se madura para isso, madura o suficiente para ter um pensamento próprio, único, diferente de tudo que já ouviu falar em um mundo de alegria constante de ação exacerbada e que para ela há muito tempo soa como infantil, falso, mentiroso, de uma demência impensável, inatingível, como se todo o Ajuntamento onde vive fosse uma máquina de sorvete cuspindo frias ilusões em que viver uma boa mentira é melhor do que aceitar e vivenciar a terrível realidade que cerca e abraça a todos.
Perfídia permanece em silêncio, não comenta absolutamente nada com ninguém quanto ao que está sentindo e nem o que está pensando, esforça-se ao máximo para não deixar transparecer uma gota sequer do peso bruto dos próprios pensamentos perdidos na escuridão – o que ela pensa ser de tamanha cegueira coletiva que transcorre por meio de um choro seco – “invisível”.
A princípio, como regra geral, há muito tempo não se tem informação de que exista alguém que não compartilhe com o mundo os próprios pensamentos. “Hummm… e agora que sou toda… pensamentos… e se eu não quiser dividir nada… com ninguém?! Mas devo fingir que faço parte desta insanidade?!”.
“Falar com o Grande Maestro…? Jamais! Como poderia existir alguém capaz de saber algo diante de uma ideia tão absurda… tão petulante! Como sendo o conhecedor do universo, o salvador das aflições?! E se, caso eu me sentir bem em companhia das minhas aflições…?! Problema meu! Ah! Quanta petulância da minha parte… eu sei… uma simples garota que não quer ser ajudada! E se, caso esse Grande Maestro souber mesmo de alguma coisa… e daí…? Que fique para ele… que guarde tudo para ele!”, nesse momento, Perfídia percebe sua possível grandeza de pensamento, e talvez, o principal, o de ser neste exato momento a única pessoa no mundo a possuir uma ideia verdadeira, original e corajosa. Mas para ela tanto faz, independentemente de ser inédita ou não, grandiosa ou não, o importante mesmo está por se permitir a tentar algo diferente do automatismo corriqueiro. “Ser… o que não se pode ser! Pensar por mim mesma algo inimaginável a um ser comum, uma reles mortal, é só uma pessoa qualquer, e todos somos mortais! E um reles mortal deixa de pensar por si próprio… ninguém jamais deveria permitir-se a fazer assim, não pensar por conta própria, jamais! Cada pessoa deveria ser capaz de desenvolver uma ideia própria sem depender de ninguém para nada, tampouco depender da aprovação de terceiros! Mas o curioso é que todos acreditam estar na posição oposta disto!”
Logo em sequência aos seus pensamentos, Perfídia riu desvairadamente, está prestes a enlouquecer – e o pior – parece estar gostando da sensação diante desta possibilidade nova de se divertir ou ao menos de pensar que sim, que pode mesmo estar se divertindo com o improvável.
Algumas pessoas a olham por pura curiosidade, afinal, todos estão felizes, mas alguém (ela mesma) acabara de soltar um riso estridente acima dos demais, destoante do momento e com isso não tem a mínima possibilidade de não ter despertado a atenção de todos, e por isso mesmo algumas pessoas estão olhando para Perfídia esperando uma explicação. Algumas dessas pessoas permanecem paradas por algum tempo, aguardando-a se manifestar e dizer o que está pensando, afinal, é assim que todos fazem, mas isso não acontece, não com ela, não agora. Porém, nada disso é o suficiente para despertar a desconfiança de ninguém e tudo permanece como há poucos instantes, morno, chocho, monótono. Mesmo não sendo comum uma pessoa não dividir seus pensamentos com aqueles que estão ao seu redor, tudo acaba por passar sem alvoroço. Outros acontecimentos roubaram a atenção das pessoas com facilidade, pois quem seria capaz de não dizer ao Ajuntamento algo de si mesmo?
Perfídia está por completar quinze anos, faltam apenas alguns meses e mais alguns poucos dias, e ao contrário de muitas meninas da sua idade, ela tem alguma noção do que está por acontecer em sua vida, desespera-se ao perceber a inutilidade de seus esforços porque sabe que normalmente não irá resolver nada. No momento em que pensa em uma saída mais digna ao que se apresenta, o desespero a toma por completo, como se estivesse a caminhar por entre trilhas e ruas sem saída, onde tudo se mistura e fica impossível saber o que de fato pode acontecer. Ela se recusa a acreditar que sua vida tem que seguir algum tipo de padrão, mesmo que seja o padrão da liberdade; ela – uma simples garota que não aceita nenhuma ideia enfiada “goela abaixo” e que naturalmente se sente no direito e por isso insiste em pensar por ela mesma.