O mundo não depende da linguagem humana para existir. O mundo, este absoluto universal, não depende de nada com relação à existência ou não de seres humanos, seja na Terra ou no espaço, e mesmo que os seres humanos um dia sejam capazes de construir uma bomba potente o suficiente para destruir o planeta inteiro, a ponto de tudo ficar inabitado, totalmente diferente de como o conhecemos hoje, ainda assim continuará a existir algum tipo de arremedo de planeta, e mesmo que tudo seja transformado em um lugar hostil e de impossível sobrevivência, algo que realmente não possa ser utilizado pela grande maioria dos seres vivos que hoje existe em nosso planeta, ainda assim o planeta continuará a existir de algum jeito, de alguma maneira o mundo nunca dependeu e nunca irá depender de nós para nada.
Assim, não devemos confundir que as nossas vidas, que a permanência de condições mínimas de sobrevivermos na Terra, que nada disso tenha algo a ver com a própria existência ou não do planeta, pois estes são pontos que provavelmente jamais terão alguma relação simultânea entre nós, e o planeta em que vivemos.
No mundo do absoluto, nossa capacidade de criar abstrações, frases, interpretações, construções e distorções das nossas realidades; nada no universo depende de nós para coisa alguma. Para esta questão do absoluto universal, nenhuma linguagem é capaz de se referir a isto senão de maneira relativa, porque essa é a própria limitação da linguagem, porém, gostamos de acreditar como se fosse algo absoluto; sendo que o absoluto se reafirma no próprio absoluto, enquanto o que é relativo, nega a si mesmo no instante exato em que tenta se firmar como algo efetivo, assim, o relativismo é pura contradição.
A linguagem cria sentidos que parecem reais, mas são apenas representações humanas da realidade, como se as palavras em si pudessem tocar as coisas com mecanismos de construções da imaginação, de maneira a tentar estruturar a sociedade e suas relações. Uma palavra se refere a outras palavras por meio de seus jogos de pares de opostos, o sentido nasce da relação entre os termos, não da pseudo relação com os objetos, mas sim com representações dos objetos, por isso, ficamos com a sensação de que a palavra é a realidade, e não uma simples forma de representação da realidade.
Veja o seguinte exemplo; eu não posso e não consigo dizer que não admito nenhuma ideia absoluta sem necessariamente me utilizar de uma frase absolutista, enquanto que o relativo (ou relativismo) não consegue sequer “existir” sem negar a si mesmo por meio do uso inequívoco de frases absolutistas. Não dá para dizer que o relativismo é relativista, pois a frase em si já é uma negação do relativismo, pois somente podemos fazer isso de forma absoluta, não dá para afirmar algo de maneira relativista, por isso sempre usamos frases absolutistas. Se alguém diz; “tudo é relativo”, a pessoa automaticamente nega o que está tentando afirmar, pois não consegue dizer isto de outra maneira, não pode afirmar algo relativista sem se contradizer, a afirmação por si só já é uma frase absoluta, não é possível sequer dizer que “talvez tudo seja relativo”, porque, mesmo assim, a frase já deixaria subentendido que o soberano no mundo da linguagem é próprio absoluto, nem mesmo neste caso, pois a palavra “talvez” não salva o relativista, indiretamente tenta reafirmar a inexistência de seu próprio conteúdo.
O absoluto é o incondicionado, é o autossuficiente que não depende de nada e nem de ninguém para existir, não depende de nenhuma relação ou contexto com nada, o absoluto simplesmente existe. Já o relativo; não, sua dependência é total e inequívoca.
As pessoas que não entendem essa questão possuem uma enorme dificuldade de perceber que o mundo existe sem que a própria pessoa em si continue ou não a existir, o mundo é absoluto, a pessoa e a linguagem; não, por isso a fala por si só não altera nada. É muito comum que o ser humano veja o mundo por meio dos próprios olhos, mas ao mesmo tempo e, contraditoriamente, não é capaz de perceber a própria insignificância com relação ao todo ou aos outros, por isso, as convivências entre humanos são tão difíceis, pois todos praticamente enxergam apenas a si mesmos, e isso ocorre no mesmo instante em que estão a negar a si mesmos (tudo muito confuso e contraditório), pois, quando dependem do olhar do outro para se sentirem vivas e não correspondem ao movimento de reconhecer o outro, tudo se perde em joguinhos de manifestação do ego. Todas as pessoas precisam ser importantes para alguém ou para um grupo, logo, ninguém existe sendo autossuficiente para si mesmo, tudo nos seres humanos está sempre correlacionado ao outro, assim; psicologicamente, socialmente, biologicamente, todos dependem de todos, mas o ego luta contra, o ego quer roubar a cena, o ego quer ser o absoluto, e é aí que tudo desaba, o mundo desmorona porque quase ninguém consegue viver para si mesmo, e se de fato não somos nada enquanto estamos isolados, sozinhos, por fim, todos acabam por depender de todos, e não estando devidamente cientes em reconhecer no outro senão um trampolim, um apoio, uma muleta, como um meio de satisfazer apenas os próprios desejos, a autoanulação acaba por ocorrer de maneira automática e imediata. Neste momento o mal se espalha pela Terra, este é o relativo querendo ser o absoluto, é o mal querendo ser o bem, é o diabo que não reconhece a si mesmo como ruim, perverso, maligno e, assim, ao negar sua própria condição de dependência, tenta escravizar a todos, instantaneamente, em joguinhos psicológicos de vaidade e poder.
A liberdade não é um ato solitário de você com você mesmo, mas sim, de todos, com relação a todos.
Você não pode ser obrigado a nada, e também não pode obrigar nada a ninguém, a liberdade é um conceito relativo que depende necessariamente do absoluto, o absoluto de reafirmar a própria liberdade de quem não permite tudo e nem proíbe tudo, pois se fosse assim, não seria liberdade, seria outra coisa, talvez libertinagem, talvez safadeza, talvez um jogo de vontade e de poder, o narcisista sabe bem do que estamos falando, e os ditadores também, mas todos negam.